Durante audiência pública, comunidades relataram os impactos dos apagões e empresas apresentaram propostas para enfrentar as falhas no serviço
Em busca de soluções para os frequentes apagões que atingem comunidades rurais de Humaitá, a Defensoria Pública do Amazonas (DPE-AM) promoveu, no Distrito de Auxiliadora, a primeira de duas audiências públicas sobre a situação do serviço de energia elétrica. O encontro, na Zona Rural de Humaitá, no sul do Amazonas, reuniu moradores, autoridades e representantes das empresas responsáveis pela geração e distribuição de energia, nesta quarta-feira (10/6).
“A Defensoria Pública é um instrumento de interligação entre as pessoas que enfrentam o problema e as empresas responsáveis pelo serviço, que precisam melhorar a vida dessas pessoas. Falamos aqui de um direito básico, a energia é um item essencial”, disse o defensor público Ricardo Paiva, que conduziu a audiência ao lado dos defensores Theo Costa e Francine Buffon.
Profissionais da saúde, da educação e lideranças comunitárias relataram os prejuízos acumulados ao longo dos anos em razão das frequentes interrupções no fornecimento de energia elétrica. Entre os depoimentos, chamou atenção o da técnica de enfermagem Cláudia dos Santos, responsável pela conservação das vacinas no Distrito de Auxiliadora, que relatou o risco constante de perda de insumos na única unidade de saúde fixa da região.
“Quando falta luz, precisamos armazenar as vacinas em caixas térmicas com gelox para manter a temperatura adequada e evitar a perda dos imunizantes”, contou.
A profissional afirmou que já passou diversas madrugadas monitorando a geladeira da unidade, temendo que as oscilações no fornecimento comprometessem os equipamentos. “Já houve noites em que a energia caiu oito vezes. A qualquer momento, a geladeira poderia queimar”, relatou.
A dentista Karliane Leal relatou que as oscilações e interrupções no fornecimento de energia já provocaram a queima de diversos equipamentos da unidade de saúde, incluindo aparelhos de ar-condicionado e o compressor da cadeira odontológica, que até hoje apresenta falhas em decorrência da instabilidade da rede elétrica.
Segundo ela, os apagões também comprometem diretamente os atendimentos. “Há risco à saúde. Se a energia cai durante um procedimento, preciso aguardar o retorno do serviço para concluir o atendimento. Em alguns casos, é necessário reaplicar a anestesia, e o paciente não pode ser liberado por causa do risco de infecção”, afirmou.
Propostas de solução
Durante a audiência, a empresa responsável pela distribuição de energia reconheceu a existência de falhas no sistema e apresentou aos moradores um plano inicial de intervenções para melhorar o fornecimento na região.
“Já identificamos a necessidade de reforçar a rede, inclusive com a instalação de um banco de capacitores, porque sabemos que há uma questão relacionada à potência. A expectativa é iniciar esse trabalho ainda neste mês”, afirmou Marcelo Fadoul, gerente do Departamento Técnico do Interior da Âmbar, que se comprometeu ainda a transformar 14km de rede monofásica em trifásica, instalar religadores automáticos e ampliar a equipe de manutenção.
A empresa responsável pela geração de energia, por sua vez, detalhou a estrutura da usina que abastece a localidade, composta por cinco geradores. Segundo o engenheiro eletricista da Power Tech, a unidade tem capacidade para atender à demanda da região.
“Temos a estrutura necessária para abastecer essa área. Não medimos esforços para prestar o serviço”, declarou, também acrescentando que irá implantar mais um grupo gerador na planta da usina.
Vistoria no sistema de energia
A audiência foi precedida por uma vistoria técnica realizada pela Defensoria Pública. A equipe, composta por defensores públicos e engenheiros civis e eletricistas, visitou a usina responsável pela geração de energia e inspecionou trechos da rede de distribuição que atende o Distrito de Auxiliadora.
O defensor público Theo Costa afirmou que as irregularidades podem ser constatadas a olho nu. Segundo ele, um dos principais problemas é a distância entre os postes, que ultrapassa os limites estabelecidos pela regulamentação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Essa situação faz com que os cabos fiquem soltos e se aproximem da vegetação, aumentando o risco de danos à rede elétrica durante eventos climáticos adversos.
“A usina possui um sistema automático de proteção que, ao identificar curtos-circuitos, entra em modo de emergência e interrompe o fornecimento de energia. Nos últimos 12 meses, foram registradas 1.067 interrupções no serviço”, destacou.
Durante a diligência, foram coletadas informações técnicas e realizadas entrevistas com os responsáveis pela operação do sistema. O material levantado, somado aos depoimentos colhidos na audiência pública, integrará o Procedimento Coletivo instaurado pela Defensoria para apurar as falhas no fornecimento de energia e buscar soluções para o problema.
*Fonte – DPE-AM


