São Paulo, maio de 2026 – Os resultados do aquecimento global dos últimos anos, já fazem parte da realidade da Amazônia, maior floresta tropical do mundo. O estudo “Seca extrema na Amazônia: um olhar sobre territórios e mulheres atingidas”, do Programa de Desenvolvimento Local do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGVces), desenvolvido entre maio de 2024 e agosto de 2025, mostra que a região viveu uma das mais intensas secas da história nos últimos três anos, com ênfase nas regiões da bacia do Tapajós (PA) e do interflúvio Purus-Madeira (AM), resultado da combinação entre mudanças climáticas em curso, com o fenômeno do El Niño. A gravidade do fenômeno atingiu os principais rios da bacia, que superaram recordes negativos históricos.

A elevação de temperaturas acima da média e a sequência de ondas de calor, aliadas às condições de aridez e empobrecimento dos solos pelo acúmulo de desmatamento e degradação florestal, contribuiu para a rápida propagação de focos de calor na Amazônia. Em 2024, o bioma foi o que mais sofreu com os incêndios no país, com 17,9 milhões de hectares atingidos pelo fogo, que representam 58% da área incendiada naquele ano no Brasil. Entre os estados impactados, o Pará registrou a maior extensão de queimadas em 2024, com uma área atingida de 7,53 milhões de hectares, quase um quinto do total da área incendiada no Brasil. Além disso, na bacia do Rio Xingu, o agravamento da ocorrência de focos de calor atingiu sobretudo Terras Indígenas (TIs) em 2024.

Em decorrência do grave quadro de seca, com ondas de calor e incêndios de grandes proporções, povos indígenas e comunidades tradicionais tiveram seus modos de vida gravemente atingidos, culminando em ameaças à garantia de direitos fundamentais.

O estudo traz os principais impactos vividos nesses territórios e sua relação direta com a escassez hídrica, separados em 9 categorias.

 

1 – Insegurança Alimentar e perda de trabalho e renda – O rebaixamento do nível dos rios, associado à piora da qualidade da água e aumento da temperatura média, ocasionou escassez de pescado, com redução do percentual de proteína e gordura presente na carne desses animais, prejudicando seu sabor e valor nutricional, logo a população local sofreu tanto com o consumo diário quanto para a venda desses produtos. Além disso, passaram a arcar com maiores despesas para aquisição de bebedouros, mangueiras, garrafas de água mineral e itens da cesta básica, que tiveram reajuste em seus valores.

2- Alteração na circulação e isolamento de comunidades – O rebaixamento dos cursos d’água resultou na alteração e na interrupção das dinâmicas de transporte fluvial nos territórios, no aumento nos preços dos trajetos realizados por balsas e barcos e na ausência de alternativas para transporte.

3 – Agravos à saúde e sofrimento psíquico – a contaminação das águas e as alterações nos padrões alimentares impactou a saúde de famílias e comunidades amazônicas. Entre as enfermidades causadas ou agravadas pela seca estão: doenças estomacais, intestinais, problemas dermatológicos e o aumento de doenças respiratórias.

4- Fragilização das comunidades e da proteção territorial – A situação de seca extrema, sobreposta ao aumento de invasões e pressões de empreendimentos econômicos sobre os territórios coletivos, foi marcada pela interrupção de reuniões comunitárias e atividades promovidas pelos coletivos e organizações de base para formação política, em especial aquelas protagonizadas por mulheres e juventudes.

5- Desafios para efetivação de políticas públicas- No âmbito da saúde, lideranças comunitárias e organizações da sociedade civil enfrentaram desafios associados à impossibilidade de deslocamento dos servidores públicos para os territórios, assim como para acesso das comunidades às unidades de saúde nos centros urbanos. Alguns territórios também foram impactados pelo desabastecimento e pela suspensão do funcionamento de postos de saúde, pronto socorros e serviços de ambulância e outros equipamentos.

6- Sobrecarga do trabalho de cuidados – Desafios para acesso aos serviços de saúde, por sua vez, demandaram maior dedicação das mulheres à recuperação de pessoas adoecidas, em meio à falta de medicamentos, perda de plantas medicinais e interrupção da oferta de serviços básicos e ausência de atendimento emergencial.

7- Intensificação de riscos de violência contra a mulher– Em meio às mudanças nos padrões de circulação nos territórios e ampliação do convívio com agressores, em uma conjuntura marcada pelo enfraquecimento das redes de suporte e dos serviços públicos para acolhimento e proteção social, mulheres enfrentaram o aumento dos riscos de violência por gênero.

 

*Fonte – FGV