Em sua primeira viagem à Ásia como presidente dos Estados Unidos, Joe Biden deu seu mais forte aviso a Pequim de que Washington estava comprometido em defender Taiwan militarmente no caso de um ataque da China.

Os comentários de Biden, que compararam um possível ataque chinês a Taiwan com a invasão da Ucrânia pela Rússia, pareceram desviar-se da política de “ambiguidade estratégica” praticada há décadas por Washington sobre o assunto e aparentemente levantaram a possibilidade de um confronto militar entre as forças americanas e chinesas.

É a terceira vez que Joe Biden faz comentários semelhantes desde que assumiu o cargo e, assim como nas outras duas ocasiões, eles foram rapidamente rechaçados pela Casa Branca –que insiste que sua política não mudou. No entanto, inevitavelmente, levanta a questão: se a China tentar tomar Taiwan, os Estados Unidos e seus aliados serão capazes de detê-la?

E a resposta alarmante é: muito possivelmente não. Analistas dizem que a China tem mais tropas, mais mísseis e mais navios do que Taiwan ou seus possíveis apoiadores, como os EUA ou Japão, pudessem trazer para uma luta. Isso significa que, se a China estiver absolutamente determinada a tomar a ilha, provavelmente conseguirá.

Mas há uma ressalva; enquanto a China provavelmente poderia prevalecer, qualquer vitória teria um preço extremamente sangrento para Pequim e seus adversários.

Muitos analistas dizem que uma invasão de Taiwan seria mais perigosa e complexa do que a chegada dos Aliados à França no Dia D da Segunda Guerra Mundial. Documentos do governo americano estimam que quase meio milhão de soldados foram mortos, feridos ou desaparecidos em ambos os lados durante a batalha de quase três meses na Normandia.

E a carnificina civil poderia ser ainda muito pior. A população de 24 milhões de pessoas em Taiwan está concentrada em densas áreas urbanas, como a capital Taipei, com uma média de 9.575 pessoas por quilômetro quadrado. Compare isso com Mariupol, na Ucrânia –devastada na guerra com a Rússia– e com uma média de 2.690 pessoas por quilômetro quadrado.

Apesar de suas vantagens numéricas em forças marítimas, aéreas e terrestres na região, a China tem calcanhares de Aquiles em cada arena de guerra que forçariam Pequim a pensar muito sobre se uma invasão valeria o enorme custo humano.

Aqui estão alguns cenários de como uma invasão chinesa poderia se desenrolar:

Guerra naval

A Marinha chinesa é a maior do mundo, com cerca de 360 navios de combate –maior do que a frota dos Estados Unidos, que tem pouco menos de 300 navios.

Pequim também tem a frota mercante mais avançada do mundo, uma grande guarda costeira e, dizem os especialistas, uma milícia marítima –barcos de pesca alinhados com os militares de forma não oficial– dando acesso a centenas de embarcações adicionais que podem ser usadas para transportar as centenas de milhares de tropas que a China precisaria para uma invasão anfíbia.

E essas tropas precisariam de grandes quantidades de suprimentos.

“Para Pequim ter perspectivas razoáveis de vitória, o ELP [Exército de Libertação Popular, que é o conjunto das forças militares da China] teria que mover de um lado para o outro milhares de tanques, canhões de artilharia, veículos blindados e lançadores de foguetes com as tropas. Montanhas de equipamentos e lagos de combustível teriam que cruzar [o Estreito de Taiwan] com eles”, escreveu Ian Easton, diretor sênior do Project 2049 Institute, no “The Diplomat” no ano passado.

Fazer com que uma força desse tamanho cruzasse os 177 quilômetros do Estreito de Taiwan seria uma missão longa e perigosa, durante a qual os navios que transportariam as tropas e equipamentos seriam alvos fáceis.

“O pensamento sobre a China invadir Taiwan é um massacre para a marinha chinesa”, disse Phillips O’Brien, professor de estudos estratégicos da Universidade de St. Andrews, na Escócia.

Isso porque Taiwan está estocando mísseis antinavios baseados em terra baratos e eficazes, semelhantes ao Neptune que a Ucrânia usou para afundar o navio russo Moskva, no Mar Negro, em abril.

“Taiwan está produzindo essas coisas em massa. E elas são pequenas, não é como se [a China] pudesse acabar com todas elas”, disse O’Brien.

“O que é barato é um míssil antinavio baseado em terra. O que é caro é um navio”.

Ainda assim, a China poderia –dada sua vantagem numérica– simplesmente decidir que as perdas valeriam a pena, apontou Thomas Shugart, ex-capitão de submarino da Marinha dos EUA e atual analista do Center for a New American Security.

“Haverá centenas, senão milhares de navios [chineses] lá para absorver esses mísseis [taiwaneses]”, disse Shugart.

Mísseis à parte, a China enfrentaria enormes obstáculos logísticos para desembarcar soldados suficientes. A sabedoria militar convencional sustenta que uma força de ataque deve superar os defensores em 3 para 1.

“Com uma força de defesa potencial de 450 mil taiwaneses hoje […], a China precisaria de mais de 1,2 milhão de soldados (de uma força ativa total de mais de 2 milhões) que teriam de ser transportados em muitos milhares de navios”, disse Howard Ullman, um ex-oficial da Marinha americana e professor da Escola de Guerra Naval dos EUA, escreveu em uma dissertação para o Conselho do Atlântico em fevereiro.

Ele estimou que tal operação levaria semanas e que, apesar da força marítima da China, “simplesmente falta a capacidade militar e a capacidade de lançar uma invasão anfíbia de Taiwan em grande escala no futuro próximo”.

 

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