No início da semana, o Exército do Sudão e as Forças de Apoio Rápido concordaram com um cessar-fogo de sete dias, que começava esta quinta-feira. Contudo, poucas horas depois de terem entrado em vigor, as tréguas foram violadas por confrontos violentos em Cartum. Perante este cenário, as Nações Unidas alertaram para a crescente crise humanitária no país e para a necessidade de as fações beligerantes cessarem as hostilidades, tendo em vista garantir a retirada de civis e a ajuda humanitária no território.

“As nossas forças entraram hoje de madrugada em confronto com os rebeldes que tentaram atacar o comando da Região Militar do Norte de Cartum”, afirmaram as Forças Armadas em comunicado, acrescentando que houve mortos e feridos nas fileiras das Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla em inglês).

Em resposta aos ataques, o exército avisou os cidadãos da capital para “se afastarem dos locais dos confrontos”.
Segundo relatos de residentes da capital do Sudão à agência de notícias EFE, este foi o “combate mais pesado” desde o início das hostilidades. As testemunhas revelaram que ouviram fortes explosões no Palácio da República e no comando geral do exército no centro de Cartum, além de combates nas ruas da área militar de Cartum Norte.

Já os paramilitares das RSF referiram, em comunicado, que o exército sudanês violou a trégua humanitária ao atacar as suas “unidades e bairros residenciais com artilharia indiscriminada e bombardeamentos aéreos”.

“As Forças de Apoio Rápido condenam as ações irresponsáveis dos líderes das forças golpistas e dos extremistas remanescentes do regime defunto ao violarem as tréguas humanitárias declaradas e ao atacarem as nossas forças”, afirmaram os paramilitares numa nota publicada na sua conta oficial da rede social Twitter.

Também foram palco de confrontos as cidades de Omdurman e Bahri, apesar de estar em vigor o cessar-fogo de 4 a 11 de maio.

“Desde a noite de ontem e esta manhã, há ataques aéreos e confrontos”, disse Al-Sadiq Ahmed, um civil de Cartum, à Reuters. “Estamos em estado de terror permanente porque os combates acontecem nos centros dos bairros residenciais. Não sabemos quando este pesadelo e o medo vão acabar”.

Os recentes combates e bombardeamentos aconteceram poucas horas depois de ter entrado em vigor a mais longa pausa humanitária acordada pelas duas partes desde o início do conflito no país. Esta trégua tinha como objetivo permitir a entrada de ajuda no Sudão, que vive uma catástrofe humanitária segundo a ONU, e a fuga de estrangeiros e cidadãos que ainda se encontram no meio do fogo cruzado.

O Governo sul-sudanês indicou igualmente que os dois líderes beligerantes, o chefe do exército, Abdelfatah al Burhan, e o comandante das RSF, Mohamed Hamdan Dagalo, conhecido por “Hemedti”, deveriam aproveitar esta semana para nomear os porta-vozes das delegações para as conversações de paz acordadas.
ONU alerta para crise humanitária
De acordo com a ONU, cerca de 100 mil pessoas já se deslocaram para os países vizinhos devido ao conflito, que causou pelo menos 550 mortos, sendo o Chade e o Egito os países que acolheram mais sudaneses.
Na quarta-feira, as Nações Unidas pressionaram as forças militares e paramilitares em confronto para que garantissem a passagem de ajuda humanitária no Sudão, depois de seis camiões terem sido assaltados e vandalizados.

O secretário-geral da ONU apelou também à comunidade internacional para que pressione os generais em guerra, no Sudão, a pararem o conflito. De visita a Nairobi, no Quénia, António Guterres repetiu que o país enfrenta uma catástrofe humanitária.

O responsável pela ajuda humanitária da ONU, Martin Griffiths, admitiu à Reuters que prevê ter reuniões cara a cara com asmbos os lados em conflito dentro de dois a três dias para ter garantia de que permitem a entrada de camiões de apoio humanitário.

“É importante para mim que nos encontremos fisicamente, cara a cara, para discutir isso, porque precisamos que seja um momento público e responsável”, frisou.